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FLORES, FRUTAS E AVÓS

CRÓNICA // CAMINHOS COM ARTE

Se você acha que este texto foi escrito por alguém que tem saudades das avós, tem toda razão. Nem mais e nem menos que isso.

Cresci com minhas avós. A paterna, que vivia em nossa casa e a materna, que vivia muito perto. Tão perto, que todos os dias eu ia até à sua casa, depois que saía da escola.

Eram senhoras com humores muito diferentes, mas com algo muito em comum: ambas interagiam com a natureza.
A Dona Laura conhecia o poder das flores. Flores que perfumavam, que enfeitavam, que alimentavam e que curavam. As rosas, os cravos, as gardênias e os jasmins tornavam o simples ato de estarmos na nossa varanda num evento aromático. Enquanto as hortênsias, amarílis, amores-perfeitos, antúrios, azaléias e begónias faziam do nosso jardim o mais bonito da rua. E, para quem não sabe, uma salada de rosas é algo muito interessante de se experimentar.

A D. Laura usava as mais claras. Dizia que as de cores escuras eram um pouco amargas. Em dia de festa especial, uma saladinha de rosas amarelas e brancas dava um toque muito especial na nossa mesa. E quando a barriga doía, nada melhor do que os chás de camomila ou de rosas-brancas (aqui estão elas novamente). Às vezes nós até éramos capazes de inventar dores de barriga só para ganhar os chás da avó.

Por sua vez, lá na sua casa, a Dona Maria cuidava do seu pomar. Mas não era um pomar qualquer. Era um pomar de frutas exóticas. Desde abacates enormes e amarelos por dentro, até frutas de nomes muito engraçados. Nomes tão sonoros, que pareciam saltar enquanto pronunciados, como o da pitanga, do jambo e da jabuticaba. A Dona Maria adorava falar com elas todas, num diálogo semi-telepático, onde ela dizia e recebia as respostas como que por transmissão de pensamento da planta para ela. A verdade é que se notava um amor recíproco, porque as árvores davam-lhe, sem poupar, as frutas mais deliciosas que já passaram pela minha vida e pelas vidas de meus primos que passavam lá os fins-de-semana.

Saudade é uma palavra sem traduções. Um presente que recebemos da nossa língua portuguesa.
As avós tornaram-me uma pessoa certamente muito melhor do que eu poderia ter sido. Das flores e das frutas extraiam poesias que se apoderaram da minha alma. E ainda se apoderam.

Fernando Terra
Director artístico do programa Rugas de Riso – Associação MELECA

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